
A lenda de Glauco: De homem a Deus marinho
Para Anaximandro, o homem é um filho do mar, do inconsciente cósmico que caminha evolutivamente em busca da realização de sua humanidade. Glauco, o deus marinho, é filho de Posídon e de uma ninfa do mar chamada Naís. Nasceu mortal mas, um dia, tendo posto sobre as ervas da margem uns peixes que acabara de pescar, notou que eles se agitavam de um modo extraordinário e se lançavam no mar. Acreditou que estas ervas possuíam uma virtude mágica, provou-as e torno-se um deus marinho. Posídon e Tétis despojaram-no do que tinha de mortal e o admitiram como um Deus. O processo de individuação, de busca da totalidade, pressupõe uma atitude de luta e integridade na busca da consciência, além do conhecimento e a fé na unidade da vida espiritual e na imortalidade do espirito. No caso do mito de Glauco, o seu processo não é marcado por nenhuma dificuldade. Ao contrário, a sua descoberta da planta da imortalidade quase se dá por acaso. Ele não teve que trilhar nenhum caminho penoso e muito menos enfrentar ou matar um monstro para conseguir a planta da imortalidade. Mas, como Jung provou que o acaso não existe, a descoberta de Glauco aconteceu porque ele estava preparado pra "ver", para o ato de conhecer, porque ele era um pescador. O pescador é, simbolicamente, aquele que se dedica ao ato de buscar no inconsciente, de "fisgar" o alimento da sabedoria para a consciência. Ele dedicava a sua vida a pratica do conhecimento e era possuidor da virtude da sabedoria, já era um iniciado. De forma geral, os mitos afirmam que o conhecimento, o criar consciência, é o caminho para a imortalidade. O conhecimento do bem e do mal retira o indivíduo do estado de alienação e o torna capaz de "ver" onde se encontra a Árvore da Vida ou a planta milagrosa que lhe dará a imortalidade, ou o conhecimento da eternidade do espírito. Glauco estava capacitado para "ver" e acreditou no que via. Apenas os peixes, o seu guia interior e os símbolos do Self foram os sinais que lhe apontaram o caminho da verdade. Glauco morre para o mundo profano e renasce para o mundo espiritual. Aquele que já provou dos frutos da Árvore da Ciência é um iniciado porque conhece o bem e o mal, se humanizou, e assim está preparado para comer os frutos da Árvore da Vida. Toda pessoa que se dedica ao ato da investigação do inconsciente com a finalidade de obter o conhecimento de si mesmo e da vida é um pescador. O conhecimento do mundo reside dentro de cada um. O novo deus marinho pode ser definido como aquele que sai da condição histórica, abandona o devir humano para fazer o caminho de volta, a reconciliação com o inconsciente, com a totalidade cósmica. O pensamento hermético concebe que a "Totalidade" é tanto o início quanto o encerramento de um processo, e isto constitui o segredo hermético, o que Jung e a psicologia junguiana, mais tarde, chamarão de individuação. A entrada para dentro de si mesmo corresponde à imersão, ao banho ritual. O costume do banho ritual, que depois tomou a forma do batismo, foi amplamente usado pelo cristianismo para designar os dois atos simbólicos, a imersão e a emersão. "O homem velho morre por imersão na água, e dá origem a um ser novo regenerado". A própria água é um chamamento para a nudez como sinônimo de pureza, despojamento, abandono de atitudes antigas